segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

OS POETAS DO PARQUE

CAMILO PESSANHA (1867-1926)
Parte 1

Após um primeiro post em que explicámos o que nos propomos fazer com esta série sobre a Poesia Portuguesa e onde demos a conhecer como nasceu e o que é o Parque dos Poetas (localizado em Oeiras, Portugal), iniciaremos agora a apresentação de cada um dos poetas ali representados.

Camilo Pessanha, por ser deste grupo o mais antigo, será o primeiro Poeta do Parque a ser aqui apresentado.
Embora tentando resumir ao máximo a vida e a obra deste grande vulto da poesia portuguesa, vimo-nos obrigados a apresentá-lo em duas partes, dado que também não é nossa intenção sobrecarregar o post nem tão pouco saturar os nossos visitantes e leitores com longos textos.


No dia 7 de Setembro de 1867, nasce em Coimbra, Camilo de Almeida Pessanha.
Dotado de uma débil constituição física que o constrangerá durante toda a sua vida, Pessanha vive em Coimbra até 1891, ano em que conclui o curso de Direito. Nos seus tempos de estudante toma contacto com as novas inspirações literárias vindas de França (principalmente Verlaine), publicadas nas revistas "Boémia Nova" e "Os Insubmissos".
Em 1894, parte para Macau, desiludido com a vida em Portugal.
Em Macau, o contacto com a cultura chinesa levou-o a escrever vários estudos e a fazer traduções de diversos poetas chineses. A degradação física de Camilo Pessanha, devida ao consumo regular de absinto e ópio, faz com que viaje até Lisboa, por várias vezes, na tentativa de uma possível recuperação. Na sua última vinda, Pessanha recebe uma carta de Fernando Pessoa, manifestando a admiração pela sua poesia, até então nunca editada, e pedindo-lhe que publicasse alguns poemas no terceiro número da revista Orpheu (Camilo Pessanha foi uma grande influência para a geração de poetas modernistas, os seus poemas simbolistas - o mundo sob a óptica da ilusão, da dor e do pessimismo - influenciaram largamente a geração de Orpheu, desde Mário de Sá-Carneiro até Fernando Pessoa).
O público português só conheceu a sua obra a partir de 1922, aquando da edição de Clepsydra, um conjunto de poemas dramáticos e de marcada musicalidade. Esta edição deveu-se sobretudo a Ana de Castro Osório, escritora e feminista, por quem Camilo Pessanha se apaixonou perdidamente, um amor não correspondido que durou toda a sua vida.
Vítima de uma tuberculose pulmonar, devida em grande parte ao consumo diário de ópio, Camilo Pessanha morreu no dia 1 de Março de 1926, estando sepultado em Macau.


Poemas:


FLORIRAM POR ENGANO AS ROSAS BRAVAS

Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze – quanta flor! – do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?


CAMINHO

Tenho sonhos cruéis; n'alma doente
Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
Embebido em saudades do presente...

Saudades desta dor que em vão procuro
Do peito afugentar bem rudemente,
Devendo, ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-me o coração dum véu escuro!...

Porque a dor, esta falta d'harmonia,
Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o céu d'agora,

Sem ela o coração é quase nada:
Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque é só madrugada quando chora.



E eis quanto resta do idyllio acabado,
- Primavera que durou um momento...
Como vão longe as manhãs do convento!
- Do alegre conventinho abandonado...

Tudo acabou... Anemona, hydrangeas,
Silindras, - flores tão nossas amigas!
No claustro agora viçam as ortigas,
Rojam-se cobras pelas velhas lagaes.

8 comentários:

  1. Comove-me este poeta q.tanto sofreu por Amor.
    Conheço e sou muito Amiga de alguns descendentes de D.Ana de Castro Osório.Também eles,há anos,
    me contaram esse Amor ñ correspondido.
    Beijo.
    isa.

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  2. Prémio Dardos para vocês no meu blog.
    Abraços

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  3. Amigos Tétis y Rodrigo,
    gracias por traernos aqui esta serie de los poetas del parque, ese bonito lugar vuestro..

    Habeis resumido muy bien la vida de CAMILO PESSANHA,.
    ENTONCES DEJO AQUI ESTA POESIA
    justamente con el titulo :

    VIDA

    Choveu! E logo da terra humosa
    Irrompe o campo das liliáceas.
    Foi bem fecunda, a estação pluviosa!
    Que vigor no campo das liliáceas!
    Calquem. Recal-quem, não o afogam.
    Deixem. Não calquem. Que tudo invadam.
    Não as extinguem. Porque as degradam?
    Para que as calcam? Não as afogam.
    Olhem o fogo que anda na serra.
    É a queimada... Que lumaréu!
    Podem calcá-lo, deitar-lhe terra,
    Que não apagam o lumaréu.

    Deixem! Não calquem! Deixem arder.
    Se aqui o pisam, reben-ta além.
    - E se arde tudo? - Isso que tem?
    Deitam-lhe fogo, é para arder...

    CAMILO PESSANHA

    Um grande abraço

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  4. Olá Isa,

    O mundo é mesmo pequenino, não é?
    Quem diria que iríamos encontrar uma amiga de alguns dos descendentes de Dona Ana de Castro Osório!

    Obrigado pelo seu comentário, volte sempre

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  5. Paula,

    O nosso muito obrigado e um grande abraço!

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Poseidón,

    Obrigado pelas tuas palavras sempre cheias de incentivo e pelo poema.
    Permite-me só uma pequenina correcção:
    "...ese bonito lugar vuestro.."
    "...ese bonito lugar nuestro.."
    Assim fica muito melhor, não concordas?

    Unidos pela amizade!

    Um grande abraço

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  8. AMIZADE,
    disculpa y gracias, si tienes razon es mejor asi :

    "...ese bonito lugar nuestro.."
    Claro que si, totalmente de acuerdo.

    un grande abrazo

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