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sábado, 22 de outubro de 2011

Os Poetas do Parque

Vitorino Nemésio (1901-1978)
Parte 2

De regresso a “Os Poetas do Parque” para mais um passeio com Vitorino Nemésio
pelo Parque dos Poetas. Hoje iremos falar um pouco da sua tão variada e vasta obra, com destaque para a obra poética.

A OBRA



Nemésio foi ficcionista, poeta, cronista, ensaísta, biógrafo e ainda historiador. Na
sua obra levou a cabo uma transformação das tendências da Presença (que de
certa forma precedeu), garantindo a perenidade dos seus textos.

Fortemente marcado pelas suas raízes insulares, é a
vida açoriana e as recordações da sua
infância que percorrem toda a obra do escritor. Há nela como que uma espécie de
apelo que nos é revelado pela ternura da sua inspiração po
pular, pela presença das
coisas simples e das gentes e por uma profunda compreensão, em relação à
existência e ao sofrimento implícito na vida humana.
POESIA
Escritor de expressão poligráfica, Vitorino Nemésio é o poeta da açorianidade que, simultaneamente atraído pelos grandes temas universais, permanece dividido entre a memória da infância (que pretende recuperar intacta) e as graves reflexões da maturidade.
Nemésio procura renovar as formas da criação poética ao explorar a linguagem nas suas capacidades metafóricas e imagéticas.
Dada a vastidão da sua obra poética, apenas destacaremos alguns títulos tentando ilustrá-los com excertos dos seus poemas.


CANTO MATINAL (1916)
É o seu primeiro livro de poesia, uma colectânea de poesias juvenis publicada em 1916 (Vitorino Nemésio tinha 14 anos e meio quando da sua publicação). Este livro resulta da sua permanência na Horta, facto que marcou profundamente o escritor então adolescente.


À lua
Ó lua, ó lua de arminho
Que andas no céu a voar,
Guarda-me aí um cantinho
Onde eu habite a sonhar!
[…]
Ó Lua dá-me um cantinho,
Um cantinho de Luar
Onde eu habite e, mansinho,
Cante orações a chorar!
Dá-me beijos e abraços
Que digam todos Amor
E deixa-me ir p’los Espaço
Oscular o teu palor.
NAVE ETÉREA (1922)
Este foi o livro inaugural de Vitorino Nemésio publicado no Continente (em Coimbra), pela Imprensa Académica em 1922. Trata-se de um longo poema, de 380 versos, escrito entre os dias 23 e 25 de Julho de 1922 (“Em Memória do Descobrimento do Caminho Celeste para o Brasil”, ou seja, da 1ª. Viagem Aérea de Lisboa ao Rio de Janeiro, por Gago Coutinho e Sacadura Cabral).

Numa manhã de névoa – sonho incerto
– Como a raça a si mesma prometera
Veio subindo a sombra do encoberto, Que na areia longínqua do deserto
Para dobrada glória se escondera.
[...]
Olha os que a vida escorraçou e teve
Em secular soturna escravidão;
Vê como deus é grande e a asa é leve...
Vê quanta dor se passa, e quanto pão
Se nega, e quanto frio e quanta neve
Não tem gasalho nem calor de verão.
E à chama deste dia de quentura
Para todos os peitos e lareiras:
Pátria, divide a terra e a alma pura! [...]
Pátria, ao liberto e eterno coração.


LA VOYELLE PROMISE (1935)
Em La Voyelle Promise, obra publicada em francês em 1935, Nemésio preocupa-se com a remodelação da sua poesia. Muitos dos poemas desta colectânea transformaram-se numa metalinguagem. É o caso de “Credo”, “De l’impuissance poétique”, “Art Poétique” onde se revela um esforço de modernidade.
Art poétique
L’imprécision caresse d’or,
Fuit mês doigts trop grossiers
Et, sur les dalles, mês pieds
Refoulent tout le décor
Si je chante,
C’est que la voix impérieuse
Et ma race impériale
Désignent de son cri et de son doigt d’épouvante
Le chemin inégal
A cette poésie immensément malheureuse,
Involontaire et brutale.
[…]
Allons, allons, à l’assaut de la vie,
Tous couronnés de vent,
Contre ce lâche mot Beauté, Beauté, hallali!
Sous nos cuisses de fer hennissent les chevaux
Vers une autre Poésie
Qui se dévêt en avant.
O BICHO HARMONIOSO (1938)

A Concha
A minha casa é concha. Como os bichos,
Segreguei-a de mim com paciência :
Fachada de marés, a sonho e lixos ;
O horta e os muros – só areia e ausência.
Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.
E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera – oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.
A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.


EU, COMOVIDO A OESTE (1940)
Eu, Comovido a Oeste
Quando eu morrer, a terra aberta
Me beba de um trago
E esqueça.
Aos deuses minha oferta
É levar o que trago:
Eu, dos pés à cabeça.
Assim, com ervas altas
Acabam os que começam.
Que Deus nos perdoe as faltas!
Dizem: "A terra que nos come":
Eu digo: "A que nos bebe" - e basta.
Somos só água que se some:
Choveu - e fomos
Na vida gasta.

FESTA REDONDA, Décimas e Cantigas de Terreiro Oferecidas ao Povo da Ilha Terceira (1950)
Festa Redonda é o livro do poeta extasiado com a substância telúrica da sua terra natal. A força dos poemas coligidos nesta obra provém da literatura de transmissão oral, metamorfoseada em poesia individual e original pelo punho de um poeta que, na singeleza aristocrática do seu espírito criador, constrói a sua própria diversidade.
Não quero rir, que me cansa,
Nem chorar, que me faz pena:
Quero ter a alma limpa
Como quando era criança.

"Olhos pretos”, diz a moda:
Eu sei lá de que cores são!
São azuis se olhas para o mar;
Negros, se os poisas no chão.

Namorei-te pelos Bodos,
Deste uma fala a meu pai,
Casámos pelo SãNunca…
Oh meu Deus, onde isso vai.


NEM TODA A NOITE A VIDA (1953)
Livro de poemas publicado em 1953 onde está bem patente toda a poética universalizante e de significação insular de Vitorino Nemésio.
SILÊNCIO
Silêncio é peso de Deus
levantar a voz começa
A pôr um homem sozinho
Como o Morto numa essa
Só o poeta, calado
É como a espada dura
E o juízo formado.
Sua mão, no joelho,
Dá a medida pura
De um sonho muito velho.
Não dizer nada!
Ter fato de lã
E a mão nele, apanhada
A maçã
Da promessa...
Mão do meu tio antigo
Era essa, era essa
Que não trago comigo!

O PÃO E A CULPA (1955)
Eira
“Dar poesia sem rosas é custoso.
Quem aceita uma pedra por emblema?
Do chão calcado em que repouso
Juntos me vêm o pão e o poema.
Assim, espiga e sossego
Se debulham ao sol do mesmo dia.
Árido peito cego,
Que és eira, e eu não o sabia!”

O VERBO E A MORTE (1959)
Nomeio o mundo
Com medo de o perder nomeio o mundo,
Seus quantos e qualidades, seus objectos
E assim durmo sonoro no profundo
Poço de astros anónimos e quietos
Nomeei as coisas e fiquei contente
Prendi a frase ao texto do universo
Quem escuta ao meu peito ainda lá sente
Em cada pausa e pulsação, um verso

POESIA (1935-1940), publicado em 1961
Colectânea com os poemas escritos entre 1935 e 1940

O CAVALO ENCANTADO (1963)
Regresso
Ao coronel Sacadura Cavalo e cavaleiro o vento adornam Com uma pata e uma pluma; À tarde unidos tornam, Um estame de sangue numa rosa de espuma. Tanta pressa, para coisa nenhuma.


ANDAMENTO HOLANDÊS E POEMAS GRAVES (1964)
De Rembrandt a Van Gogh a tinta és tu
Em rosa de bateira e sol de vinho.
O tempo fez-se-me fome,
Mas levantas os braços-e é o moinho.
Como a corça na Haia plo rebento
E a ponte levadiça,
Vais em maneira, amor e movimento,
Vela da tarde, dique do meu sangue:
Afinal só um pouco de mulher
Que a palavra detém e águas cultivam.
[…]
Eu ceifava a manhã nos teus cabelos,
Contava-os um a um, canal abaixo,
E, deitado nos verbos que te evocam,
Feliz com um pintor que vende pouco,
Era holandês por ti...
Que, bem pensando,
O que eu cá sou, céus de Van Gogh, é louco!

ODE AO RIO, ABC DO RIO DE JANEIRO (1965)
Dedicado a Cecília Meireles e a outros seus amigos brasileiros, este livro é um conjunto de várias partes, formando 16 poemas dentro do poema, composto de 667 versos. Refere-se aos poemas épicos de Virgilio e de Camões, aos bairros de Botafogo e Copacabana, a acidentes geográficos, e a figuras históricas que constituíram a cidade.

VESPERAIS (1916-1918), publicado em 1966
Opúsculo comemorativo do cinquentenário da publicação do primeiro livro de Nemésio, Canto Matinal, é constituído por apenas dois sonetos: “Ti’ Cidade” e “Ano Bom”.

CANTO DE VÉSPERA (1966)
A Árvore do silêncio

Se a nossa voz crescesse, onde era a árvore?
Em que pontas, a corola do silêncio?
Coração já cansado, és a raiz:
Uma ave te passe a outro país.
Coisas de terra são palavra.
Semeia o que calou.
Não faz sentido quem lavra
Se o não colhe do que amou.
Assim, sílaba e folha, porque não
Num só ramo levá-las
com a graça e o redondo de uma mão?
(Tu não te calas? Tu não te calas?!)

VIOLÃO DO MORRO (...) Seguido de Nove Romances da Bahia (1968)

Publicado em 1968, “Violão do Morro” inclui, além de vários poemas e baladas, “Nove romances da Bahia”. Principia pela farsa do cais Mauá, uma peça cómica onde a imagem do Rio de Janeiro é vista como uma ligação entre Portugal e os portugueses.

LIMITE DE IDADE (1972)
Requiescat

Direi, pela noite, não ódio que tivesse
Nem detestar vida corpórea e ninhos de manha,
Mas meu alto cansaço, a tristeza de lá
Onde se sente o aqui traído, a falsa entranha.
Direi - não "fora!" ao mundo que me cinge
(Outro onde o sei e como chegaria?),
Mas dos anos de ver, pensar durando
Retiro uma moeda de nada,
Fruto do meu suor, e pago o pão que se me deve,
Compro o silêncio que se me deve
Por ter cumprido a palavra,
Trabalhado nas palavras,
E por elas merecido a terra leve.

POEMAS BRASILEIROS (1972)
Romance do emigrante
Os meus olhos emigraram
Na barca Flor das Marés,
Minha Mãe ficou chorando,
Meu Pai, de pobre, morreu;
Lá no varejo da Rampa
Aquele moleque sou eu.
[…]
E em verso eu cate o piolho de oiro
Que de saudade se nutria!
Faz cafuné na minha cabeça,
Minha Bahia!
Faz cafuné!
Que bom que foi meu tio José!

SAPATEIA AÇORIANA (1976)
A caminho do Corvo
A minha vida está velha
Mas eu sou novo até aos dentes.
Bendito seja o deus do encontro,
O mar que nos criou
Na sede da verdade,
A moça que o Canal tocou com seus fantasmas
E se deu de repente a mim como uma mãe,
Pois fica-se sabendo
Que da espuma do mar sai gente e amor também.
Bendita a Milha, o espaço ardente,
E a mão cerrada Contra a vida esmagada.
Abençoemos o impossível
E que o silêncio bem ouvido
Seja por mim no amor de alguém.

FICÇÃO

- Paço do Milhafre (contos), Coimbra, 1924 (reel
aborado e publicado sob o título de O Mistério de paço do Milhafre, em 1949)
- Varanda de Pilatos, 1926 - A casa Fechada (novelas), 1937
- Mau Tempo no Canal, 1944. Romance galardoado com o Prémio Ricardo Malheiros

BIOGRAFIA, ENSAIO e CRÍTICA

- "Sob os Signos de agora Temas Portugueses e
Brasileiros". Coimbra, 1932
- "A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio (1810 1832)". Lisboa,1934
- "Isabel Aragão, Rainha Santa", Coimbra, 1936 - "Relações Francesas do Romantismo Português". Coimbra, 1936
- "Études Portugais Gil Vicente. Herculano. Antero de Quental, le Symbolisme". Lisboa, 1938
- "Gil Vicente, Floresta de Enganos". Lisboa, 1941
- "Vida de Bocage". Lisboa, 1943 - "Moniz Barreto Ensaios de Crítica". Lisboa, 1944 - "Pequena Antologia da Poesia Brasileira nos Séculos XVII e XVIII". Coimbra, 1944
- "Ondas Médias Biografia e Literatura". Lisboa, 1945
- "Perfil de Adolfo Coelho". Lisboa. 1948
- "Destino de Gomes Leal Poesias Escolhidas". Lisboa, 1952
- "Portugal e o Brasil no Processo da História Universal". Rio de Janeiro, 1952
- "Perfil do Prof. Sousa Júnior". Porto, 1953
- "O Campo de São Paulo A Companhia de Jesus e o Plano Português do Brasil (1528 1563)". Lisboa, 1954
- "Vida e Obra do Infante D. Henrique". Lisboa, 1959
- "Problemas Universitários Luso Brasileiros". Lisboa, 1955
- "Conhecimento da Poesia". Bahia, 1958, e Lisboa, 1970
- "Almirantado e Portos de Quatrocentos". Lisboa, 1961
- "Romance, Existência e Visão do Mundo". Lisboa, 1964
- "Elogio Histórico de Júlio Dantas". Lisboa, 1965
- "La Génération Portugaise de 1870". Paris, 1971
- "Quase Que os Vi Viver", Lisboa, 1985

CRÓNICA e VIAGENS

- "O Segredo de Ouro Preto e Outros Caminhos", 1954
- "Corsário das Ilhas Notas de Viagens às Ilhas dos Açores". Lisboa, 1956
- "O Retrato do Semeador", 1958
- "Viagens ao Pé da Porta". Lisboa, 1965
- "Caatinga e Terra Caída Viagens no Nordeste e no Amazonas". Lisboa, 1968
- "Jornal do Observador", (1974)
- "Era do Átomo Crise do Homem". Lisboa, 1976

TEATRO

- "Amor de nunca mais”, Angra do Heroísmo, 1920

TRADUÇÕES

Traduziu, entre outras obras, a "História da Arte", de Henri Faure, e "O Que É Vivo e o Que É Morto na Filosofia de Hegel", de Benedetto Croce.

Ficcionista, poeta, cronista, ensaísta, biógrafo e ainda historiador, Nemésio foi fortemente marcado pelas suas raízes insulares, a vida açoriana e as recordações da sua infância, características estas que percorrem toda a sua obra numa espécie de apelo, revelado pela ternura da sua inspiração popular, pela presença das coisas simples e das gentes, e por uma profunda compreensão, em relação à existência e ao sofrimento implícito na vida humana.

Por outro lado, a sua obra poética e ensaística revela também o conhecimento e a assimilação de pensadores e poetas da vanguarda internacional, como Heidegger, Rilke ou Valéry, com reflexos na exploração da linguagem nas suas capacidades metafóricas e imagéticas, procurando renovar as formas de criação poética.
Aliando uma vasta erudição à capacidade de intuir imagens de grande intensidade poética, foi um dos grandes escritores portugueses do século XX cujas obras se encontram traduzidas em italiano, francês, inglês e alemão, entre outras línguas.


Autores: Argos e Tétis

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Os Poetas do Parque

Vamos retomar os nossos passeios pelo Parque dos Poetas com mais um vulto contemporâneo (de que muitos ainda se lembrarão!...), homem este que nos legou uma vasta obra e tem lugar de destaque na cultura e na literatura portuguesa do século XX – Vitorino Nemésio


Vitorino Nemésio (1901-1978)

Parte 1
Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva, filho de Vitorino Gomes da Silva e Maria da Glória Mendes Pinheiro, nasceu a 19 de Dezembro de 1901, na cidade da Praia da Vitória, na Ilha Terceira, nos Açores.

É nesse arquipélago que fará os estudos primários e secundários.

Iniciou os estudos secundários no liceu de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, em 1912, onde cedo manifestou a sua vocação de poeta e prosador.

Colaborou em 1916 no “Eco Académico”, travando conhecimento com Jaime Brasil, seu mentor de iniciação literária e agnóstica. No mesmo ano dirigiu a “Estrela de Alva”, revista literária Ilustrada e noticiosa e publicou o seu primeiro livro de poemas “Canto Matinal”.
Não foi, no entanto, um aluno brilhante, dado que foi expulso do liceu de Angra e reprovou no 5.º ano, facto este que o levou a sentir-se incompreendido pelos professores.

Com 16 anos de idade, Nemésio desembarcou pela primeira vez na cidade da Horta, na Ilha do Faial, para se apresentar a exames como aluno externo do Liceu Nacional da Horta, tendo em 1918 concluído aí o 5º ano do liceu.

Apesar de ainda bastante novo, Nemésio chegou à Horta já imbuído de alguns ideais republicanos, pois em Angra do Heroísmo já havia participado em reuniões literárias, republicanas e anarco-sindicalistas, tendo sido influenciado pelo seu amigo Jaime Brasil, cinco anos mais velho e por outras personalidades como Luís da Silva Ribeiro, advogado, e Gervásio Lima, escritor e bibliotecário. Em 1918 o jornal “O Telégrafo” dava a notícia de que Nemésio, apesar de ser um “fedelho”, já tinha um ano antes da sua chegada à Horta enviado um exemplar do seu primeiro livro de poesia ao director de “O Telégrafo”, Manuel Emídio.

Em 1919, Vitorino Nemésio após um desaire escolar, iniciou o serviço militar como voluntário na arma de Infantaria, o que lhe proporcionou a primeira viagem a Lisboa.

Uma vez no continente, foi empregado de escritório em Lisboa e, em 1921, tornou-se redactor da “Imprensa Nacional” e de “A Pátria”, o que lhe permitiu privar com jornalistas como Norberto Lopes e Artur Portela e com dirigentes anarco-sindicalistas da CGT. Foi também um dos fundadores de “Última Hora”, precursor do “Diário de Lisboa”.

Em 1922 concluiu o liceu em Coimbra e inscreveu-se no curso de Direito onde, como revisor da Imprensa da Universidade, publicou o poema “Nave Etérea”. No ano seguinte, em que lhe morre o pai, é iniciado na Maçonaria, na loja Revolta, de Coimbra com o nome simbólico de Manuel Bernardos.

Começou também a colaborar na revista "Bizâncio", de Coimbra, e viajou para Espanha com o Orfeão Académico. Em Salamanca conheceu Miguel Unamuno, escritor e filósofo espanhol (1864-1936), intelectual republicano, e teórico do humanismo revolucionário anti franquista, com quem mais tarde trocaria correspondência.

Em 1924 abandonou o curso de Direito e matriculou se na Faculdade de Letras, em Ciências Histórico-Geográficas. Com Afonso Duarte, António de Sousa, Branquinho da Fonseca, Campos de Figueiredo e Gaspar Simões, entre outros, fundou a revista "Tríptico".


Em 1925 optou definitivamente pelo curso de Filologia Românica, tendo sido também redactor principal do jornal "Humanidade", quinzenário de Estudantes de Coimbra. Nesse jornal colaboraram, entre outros, José Régio, João Gaspar Simões e António de Sousa.

Em 1926 fundou e dirigiu com Paulo Quintela, Cal Brandão e Sílvio Lima, o jornal "Gente Nova", jornal republicano académico e, a partir de 1928, passou a colaborar na revista "Seara Nova".

Em 1930 colaborou na revista "Presença", com textos poéticos. Em Outubro desse ano transferiu-se para a Faculdade de Letras de Lisboa onde começou a pesquisa sobre Herculano que o iria ocupar até ao fim da vida.

Licenciou-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1931, com elevadas classificações e ali iniciou o magistério, leccionando Literatura Italiana e dois anos depois, Literatura Espanhola.

Em 1934 doutorou-se em Letras pela Universidade de Lisboa com a tese “A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio”.

Após o doutoramento, vai para França como leitor de português na Universidade de Montpellier e é então que tem oportunidade de conviver com intelectuais como KarI Vossler, Marcel Bataillon, Robert Ricard, Pierre Hourcade. Durante esta estada em Montpellier publica o livro de poemas “La Voyelle Promise” (1935) e profere algumas conferências, mais tarde reunidas no volume “Études Portugaises” (1938).

Em 1935 colaborou no jornal "O Diabo" com vários poemas.

Em 1937 fundou e dirigiu, em Coimbra, em conjunto com Alberto Serpa , a "Revista de Portugal". No mesmo ano, partiu para a Bélgica tendo leccionado na Universidade Livre de Bruxelas durante dois anos. De regresso a Portugal em 1939, lecciona de novo na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Colaborou nos "Cadernos de Poesia", na revista "Variante" e na revista "Litoral".
Em 1944 foi editada a primeira edição de "O Mau Tempo no Canal", que recebeu no ano seguinte o “Prémio Ricardo Malheiros” da Academia das Ciências.

Em 1946 iniciou a sua colaboração no jornal "Diário Popular" e na revista "Vértice".

Em 1952 viajou pela primeira vez para o Brasil, que viria a tornar-se para Nemésio um destino frequente.

Entre 1956 e 1958 foi director da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e, a partir de 1958, começou a leccionar no Brasil nas Universidades da Baía, Ceará, Rio de Janeiro, etc.).

Em 1960 interveio na reforma dos planos de estudos das Faculdades de Letras e viajou para África por causa dos cursos de extensão universitária em Luanda e Lourenço Marques.

Em 1963, torna-se sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa.

Em 1965 preside à Comissão Nacional do V Centenário de Gil Vicente. Foi “doutor honoris causa” pela Universidade Paul Valery, de Montpellier e, no mesmo ano, recebeu o “Prémio Nacional de Literatura”, pelo conjunto da sua obra.

Em 1966 a Biblioteca e Arquivo Distrital de Angra comemorou os “50 Anos de Vida Literária de Vitorino Nemésio” com uma exposição bibliográfica e a realização de várias conferências.

É em 1969 que inicia uma colaboração regular na RTP com o programa "Se bem me lembro", que o imporá como figura impar em matéria de comunicação audiovisual.

Em 1970 inaugurou as comemorações do centenário da "Geração de 70" no Centro Cultural Português de Paris, da Fundação Calouste Gulbenkian.


Iniciou em 1971 a sua colaboração regular na revista "Observador" e no mesmo ano, em 12 de Dezembro, atingido pelo limite legal de idade para exercício de funções públicas, profere a sua última lição na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde ensinara durante quase quatro décadas, facto esse que deu lugar à publicação, em 1972, do seu “Limite de Idade”.

Recebe em 1974 o Prémio Montagine, da Fundação Freiherr von Stein/Friedrich von Schiller, de Hamburgo. No mesmo ano, a Livraria Bertrand lançou a primeira colectânea de estudos sobre a obra de Vitorino Nemésio.

Em 1975 colaborou na homenagem ao Prof. Aurélio Quintanilha, a quem dedicou "Limite de Idade". Em Dezembro desse ano assumiu a direcção do jornal "O Dia".

Em 1977 foi coordenador nacional do centenário de Alexandre Herculano.

Faleceu a 20 de Fevereiro de 1978, em Lisboa no Hospital da CUF, tenso sido sepultado, a seu pedido, em Coimbra. Pouco antes de morrer pediu ao filho para ser sepultado no cemitério de Santo António dos Olivais, em Coimbra, pedindo-lhe também que os sinos tocassem o “Aleluia” em vez do dobre a finados. O seu pedido foi respeitado.

Homem de letras dos mais fecundos e originais, poeta, ficcionista, ensaísta, cronista, professor e crítico literário, Vitorino Nemésio domina, com uma vasta obra de criação e de investigação, o campo da cultura e da literatura portuguesa do século XX.



Autores: Argos e Tétis

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Os Poetas do Parque

José Régio (1901-1969)

Parte 3
Regressamos ao “Parque dos Poetas” para um último passeio na companhia de José Régio.
Desta vez o passeio será acompanhado de música e das vozes de alguns intérpretes de poemas de José Régio.

Iniciaremos o passeio ouvindo o poema “Fado Alentejano” interpretado pelo cantor e compositor alentejano Jorge Ganhão.

Fado Alentejano
Alentejo solidão, solidão ai Alentejo
Alentejo solidão, solidão ai Alentejo
Solidão ai Alentejo, além Tejo solidão

Oceano de ondas de oiro
Tinhas um tesoiro perdido
Nos teus ermos escondido
Vim achar o meu tesoiro

Convento de céu aberto
Nos teus claustros me fiz monge
Perdeu-se a terra ao longe
Chegou-se-me o céu mais perto

Alentejo solidão, solidão ai Alentejo
Alentejo solidão, solidão ai Alentejo
Solidão ai Alentejo, além Tejo solidão

Padre-nosso dos infelizes
Vim coberto de cadeias
Mas estas com que me enleias
Deram-me asas e raízes

Alentejo solidão, solidão ai Alentejo




Continuamos com o “Fado Português” na voz da famosa e saudosa Amália Rodrigues.
Fado Português
O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiroque,
estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava

Ai, que lindeza tamanha,
meu chão, meu monte,meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.

Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.




E para terminarmos este nosso passeio ouviremos duas interpretações do “Cântico Negro”, uma declamada pelo actor, encenador e grande declamador português João Villaret, a outra bem diferente mas não menos vibrante, pela famosa brasileira Maria Bethânia.

Cântico Negro
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!





Esperamos que tenham gostado da nossa selecção e apreciado os belos recantos deste parque.

Autores do post: Argos e Tétis

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Os Poetas do Parque

José Régio (1901-1969)

Parte 2

Após uns dias de reflexão e já cheios de saudades, voltamos ao convívio dos nossos amigos para mais um passeio pelo Parque dos Poetas.

Continuaremos na companhia de José Régio, desta vez para falarmos um pouco da sua vastíssima obra, com destaque para a obra poética.


A OBRA

Enquanto escritor, José Régio dedicou-se sobretudo ao romance (ficção), ao teatro, à poesia e ao ensaio.
Estão bem patentes e sempre presentes na sua obra as problemáticas do conflito entre Deus e o Homem, o indivíduo e a sociedade, numa análise crítica das relações humanas e da solidão. Sempre presentes estão ainda a tortura interior perante a relação entre o espírito e a carne, a ansiedade humana do absoluto, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão e a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante si mesmo.

A sua obra é principalmente marcada pela auto-análise e uma introspecção constantes, e, simultaneamente, por um misticismo inquieto que se revela em motivos como o angelismo ou a redenção no sofrimento.

POESIA

Toda a obra poética de José Régio revela uma grande tensão lírica e dramática, apresentando-se frequentemente como uma espécie de diálogo entre níveis diferentes da consciência.

Nota-se em toda a sua poesia a construção de uma linha de sentido que põe em relevo a face menos reconfortante da condição humana.

Da sua obra poética destacam-se:

“Poemas de Deus e do Diabo”

Datado de 1925, este foi o seu primeiro volume de poesia, onde o poeta usou pela primeira vez o pseudónimo José Régio.

Este não é um livro reconfortante, pois José Régio instaura na obra um tipo de linguagem poética que se desenvolve de forma luxuriante, nitidamente contrária a uma retórica epigramática e enxuta.
A sua escrita apresenta-se duma forma expansiva, no sentido de uma profundidade que permite desmontar as falácias de uma visão do mundo alicerçada em modelos que restringem e falsificam a complexidade do real.

A poesia de José Régio é, nos seus melhores momentos, como é o caso desta obra, um documento humano e, por isso mesmo, o seu discurso afasta-se da simplificação superficialmente optimista e eufórica

Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!


“Biografia”

De 1929, este é o segundo livro de poesia de José Régio.

Aqui, os vários aspectos dos temas característicos de toda a sua obra, surgem cristalizados em sonetos (alguns deles modelares) e ordenados num esforço de poemas cíclicos em suspenso.

Cristo

Quando eu nasci, Senhor! já tu lá estavas,
Crucificado, lívido, esquecido.
Não respondeste, pois, ao meu gemido,
Que há muito tempo já que não falavas.


Redemoinhavam, longe, as turbas bravas,
Alevantando ao ar fumo e alarido,
E a tua benta Cruz de Deus vencido
Quis eu erguê-la em minhas mãos, escravas!

A turba veio então, seguiu-me os rastros;
E riu-se, e eu nem sequer fui açoitado,
E dos braços da Cruz fizeram mastros...
Senhor! eis-me vencido e tolerado;
Resta-me abrir os braços a teu lado,
E apodrecer contigo à luz dos astros


“As Encruzilhadas de Deus”


Em 1936, José Régio publica aquela que é considerada por muitos a sua obra-prima.

Nela, dando continuidade à temática religiosa iniciada em “Poemas de Deus e do Diabo”, o poeta atinge os momentos mais altos da sua poesia torrencial e reflexiva, ao mesmo tempo lírica e dramática.

Poema do Silêncio

Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!
Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais, ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá...

Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.


“Fado”

Livro de poesia publicado em 1941, com desenhos do irmão Júlio, principal ilustrador da obra de José Régio.

Nesta obra não está já presente a força primitiva dos seus primeiros livros de poesia mas torna-se evidente um progressivo virtuosismo métrico, a par de notáveis qualidades de coragem na sátira social.

Fado português

O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
meu chão , meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.


Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.


“Mas Deus é Grande”

Esta é mais uma antologia de poemas, publicada em 1945, onde José Régio continua a desenvolver os temas das problemáticas do conflito entre Deus e o Homem.

Nossa Senhora

Tenho ao cimo da escada, de maneira
Que logo, entrando, os olhos me dão nela,
Uma Nossa Senhora de madeira,
Arrancada a um Calvário de Capela.

Põe as mãos com fervor e angústia.
O manto cobre-lhe a testa, os ombros, cai composto;
E uma expressão de febre e espanto
Quase lhe afeia o fino rosto.

Mãe de Deus, seus olhos enevoados
Olham, chorosos, fixos, muito além ...
E eu, ao passar, detenho os passos apressados,
Peço-lhe – “A Sua bênção, Mãe !”

Sim, fazemo-nos boa companhia
E não me assusta a Sua dor: quase me apraz
O Filho dessa Mãe nunca mais morre. Aleluia !
Só isto bastaria a me dar paz.

- “Porque choras, Mulher ?” – docemente a repreendo.
Mas à minh’alma, então, chega de longe a sua voz
Que eu bem entendo: -“Não é por Ele” ...
“Eu sei ! Teus filhos somos nós”.


“A Chaga do Lado”

Colectânea de poemas publicada pela primeira vez em 1954.


Trata-se de um conjunto de composições anteriores, poemas inéditos ou perdidos, fragmentos deixados nas gavetas, poemas publicados em revistas, poemas antigos não usados e alguns sonetos já incluídos na “Biografia”.

Onomatopeia

Menino franzino,
quase pequenino,
pequenino, triste,
neste mundo só...

Menino, desiste
de que tenham dó!
Desiste, menino,
que o mundo é cretino...
Deixa o teu violino,
toca o sol-e-dó.

Cada teu suspiro
cai ao chão no pó...
Canta o tiro-liro
tiro-liro-ló.

Deixa o teu violino,
que não te é destino.
Desiste, menino,
de que tenham dó!

Menino franzino,
triste e pequenino,
pequenino, triste,
neste mundo só...

Menino desiste!
Toca o sol-e-dó.
Canta o tiro-liro, repipiro-piro
canta o repipiro, tiro-liro-ló.


“Filho do Homem”

Livro de poesias publicado em 1961, que será galardoado com o Prémio Diário de Notícias.

Epitáfio para um poeta

As asas não lhe cabem no caixão!
A farpela de luto não condiz
Com seu ar grave, mas, enfim, feliz;
A gravata e o calçado também não.
Ponham-no fora e dispam-lhe a farpela!
Descalcem-lhe os sapatos de verniz!
Nao vêem que ele, nu, faz mais figura,
Como uma pedra, ou uma estrela?
Pois atirem-no assim à terra dura,
Ser-lhe-á conforto:
Deixem-no respirar ao menos morto!

“Cântico Suspenso”

De 1968, esta foi a última obra lírica do autor publicada em vida.

Numa entrevista dada então à RTP, José Régio falou assim desta sua obra:“Sobre o livro, é claro, teria muita coisa a dizer sobre ele. Vejo que é um livro bastante discutido como, aliás, eu já previa, descontenta alguns daqueles que apreciam mais até, os meus outros livros. No entanto, é um livro de maturidade, digamos, de amadurecimento, em que eu procurei uma concentração, uma depuração de forma, até uma secura que desgosta, talvez, os leitores dos meus outros livros. De qualquer maneira, não considero um livro inferior, ou nitidamente inferior aos outros, porque então, não o teria publicado. Acho que é um livro para ler com um bocadinho de vagar e para julgar, com um bocadinho de ponderação.”

A Estátua

Ao fim da álea de ciprestes hirtos
Do parque de qualquer longínqua era,
Num canteiro de ortigas e de mirtos
A estátua espera.

Espera. Todo o corpo
Se lhe reveste da rugosa pele
Que o tempo estende, último escopro
Sobre o que não passa com ele.

Num gesto já sem nexo
Da mão sem dedos, jaz-lhe um braço entre as ortigas.
A outra mão defende o sexo,
Onde passeiam carreirinhos de formigas.

Dos líquenes a verde-cinza lepra medra
Na bela face regular,
E as órbitas de pedra
Segregam sempre o mesmo olhar.

Deram-lho mãos que há muito. já, desfeitas
Lhe não poderão dar os outros que, sob esse,
Não passam de suspeitas
Que a fantasia tece.

Nos seus cabelos, chove.
Corre-lhe a chuva dos cabelo
Que não absorvem nada, nada move
Compactos como pesadelos.
Eram revoltos, soltos, ondulantes, sacudidos,
Os do modelo vivo
Que os séculos volvidos
Levaram, mas ali se eternizou cativo.

Do sol, às vezes, um clarão lhe oscula
Os seios túmidos sem leite,
As ancas sem calor, os lábios em que ondula
O beijo a que nenhum há que se ajeite.

De que distante céu, de que praia ignorada,
Através dos ciprestes afilados dois a dois,
Chega esse adeus do sol que não aquece nada
E aos pés da morta esmoreceu, depois?

E dos tempos felizes
Em que se erguiam, mal passou um eco
Nesses pés hoje com raízes
De ferro no chão seco.
Seios, quadris, pés naturais,
Lábios de carne, que tivestes
Frémitos, beijos, risos, ais,
Estais aqui, onde então estás?

Que mãos que a terra e os bichos engoliram,
Ó morta sempre à espera!, te moldaram,
Mas faliram
Mas que deram, porque to frustaram?


“Música Ligeira”

Publicada em 1970, já após a sua morte, esta obra integra poemas onde José Régio revela ter adquirido a pulsação lírica da juventude, enriquecida por um despojamento, uma leveza e um hermetismo novos, talvez frutos da clarividência trazida pela antevisão da morte.

A propósito dos poemas desta fase, o próprio Régio confidenciava, nos começos de 1969, a Alberto de Serpa seu amigo de juventude que “a Poesia voltara, após uma longa ausência, a visitá-lo inesperadamente”.

Cantar de Amigo

À beira do rio fui dançar... Dançando
Me estava entretendo,
Muito a sós comigo,
Quando na outra margem, como se escondendo
Para que eu não visse que me estava olhando,
Por entre os salgueiros vi o meu amigo.

Vi o meu amigo cujos olhos tristes
Certo se alegravam
De me ver dançar.
Fui largando as roupas que me embaraçavam,
Fui soltando as tranças... Olhos que me vistes,
Doces olhos tristes, não no ireis contar!
Que o amor é lume bem eu sei... que logo
Que vi meu amigo
Por entre os salgueiros
Melhor eu dançava, já não só comigo
Toda num quebranto, ao mesmo tempo em fogo,
Melhor eu movia mãos e pés ligeiros.

Que Deus me perdoe, que os seus olhos tristes
Assim ofertava
Minha formosura!
Se não fora o rio que nos separava,
Cruel com nós ambos, olhos que me vistes,
Nem eu me amostrara tão de mim segura.


“Colheita da Tarde”

Obra póstuma, publicada em 1971, recolhe vários inéditos e dispersos de José Régio.

Esta colectânea tem a particularidade de incluir os escassos poemas em prosa que José Régio escreveu.

Foste simples, banal,
Bom, com defeitos, jovial,
E tão pegado à vida,
Que ainda, velho, velho, a não podias crer vivida.
Viveste para as coisas deste mundo,
Que seria melhor
Se o pudesses fazer conforme o teu humor.
Não é por ser teu filho que sou triste,
Demoníaco, angélico, diferente,
Descontente, nevrótico, perverso.
Mas se algo, em mim, resiste
De humildemente humano,
Amigo de viver conforme vai
Vivendo a gente consoante o ano...
A ti o devo, pai !
A ti o devo, se nasci.
E a ti o devo, se inda não morri.

“16 Poemas dos não incluídos em Colheita da Tarde”


Colectânea póstuma, publicada em 1971.

Esmola

Todos os dias, de manhã, passando
Na sua rua, a encontro já erguida,
Sem estender a mão, mas esmolando,
No xalinho sem cor quase sumida.

Tem dez..., quinze..., vinte anos? Ninguém sabe.
Seu corpito parou... ficou assim.
Mas nos seus olhos, que cresceram, cabe
Todo o oceano azul dos céus sem fim.

«— Deus lhe pague!» — diz-me ela, em paga dessa
Envergonhada esmola que lhe dou.
E o seu olhar, que nada há que meça,
Já me pagou! já me pagou..


ROMANCE/FICÇÃO

- “Jogo da Cabra-Cega” - 1934
- “Davam Grandes Passeios aos Domingos” - 1941
- “O Príncipe com Orelhas de Burro” - 1942
- “A Velha Casa I - Uma Gota de Sangue” - 1945
- “Histórias de Mulheres” - 1946
- “A Velha Casa II - As Raízes do Futuro” - 1947
- “A Velha Casa III - Os Avisos do Destino”- 1953
- “A Velha Casa IV - As Monstruosidades Vulgares” - 1960
- “Há Mais Mundos” - 1962
- “Avelha Casa V - Vidas São Vidas” - 1966

ENSAIO

- “As Correntes e as Individualidades na Moderna Poesia Portuguesa” - 1925
- “Da geração modernista” - 1927
- “Algumas observações e algumas reflexões feitas durante o meu ano de prática pedagógica” - 1929
- “Críticas e Criticados” - 1936
- “António Botto e o Amor” - 1938
- “Em Torno da Expressão Artística” - 1940
- “Pequena história da moderna poesia portuguesa” - 1941
- “Ensaios de Interpretação Crítica” - 1964
- “Três Ensaios sobre Arte” - 1967
- “Páginas de Doutrina e Crítica da Presença” - 1977
- “Teixeira de Pascoaes e a Renascença Portuguesa” - 1990

TEATRO

- “Jacob e o Anjo e Três máscaras” - 1940
- “Benilde ou a Virgem-Mãe” - 1947
- “El-Rei Sebastião” - 1949
- “A Salvação do Mundo” - 1954
- “Três Peças em Um Acto: Três Máscaras, O Meu Caso e Mário ou Eu Próprio-O Outro” - 1957
- “Sonho duma véspera de exame” - 1989


MEMÓRIAS

- “Confissão dum Homem Religioso” - 1971

CORRESPONDÊNCIA

- “Correspondência” (entre José Régio e António Sérgio) - 1994
- “Correspondência familiar” (cartas a seus pais) - 1997
Autores: Argos e Tétis