sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Manoel de Barros

Desta vez o nosso amigo e colaborador do Brasil, “O Mar”, dá-nos a conhecer o poeta contemporâneo brasileiro Manoel de Barros, de quem nos disponibiliza uma pequena biografia e o poema “O Apanhador de Desperdícios” que, como diz, se destina ao “conhecimento e reflexão de todos”.

O poeta Manoel de Barros (Manoel Wenceslau Leite de Barros, nasceu em Cuiabá, MT, 1916) é reconhecidamente um dos principais poetas contemporâneos do Brasil. Sua poesia trata essencialmente da beleza de coisas simples, desvinculadas dos temas recorrentes da poesia erudita. Seu estilo foi influenciado, entre outros, pela poesia de Oswald de Andrade (poeta modernista brasileiro), Rimbaud (poeta francês do século XIX) e de toda a obra do Padre Antonio Vieira, do poeta argentino Jorge Luís Borges e de João Guimarães Rosa.


Seu primeiro livro de poesia, Poemas Concebidos Sem Pecado, foi publicado em 1937, o qual deu seguimento a Face Imóvel (1942), Poesias (1946), Compêndio para Uso dos Pássaros (1961), Gramática Expositiva do Chão (1969), Matéria de Poesia (1974), O Guardador de Águas (1989), Retrato do Artista Quando Coisa (1998), O Fazedor de Amanhecer (2001), entre outros.

O poema “O Apanhador de Desperdícios”” consta no livro "Memórias Inventadas: a Infância" (2003).

O Apanhador de Desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água, pedra, sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade das
tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos,
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática: eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor os meus silêncios.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Gentileza gera Gentileza

E temos aqui mais um lindo selinho recebido da amiga Reggina Moon, do blog Verso & Prosa - http://versoeprosapoemas.blogspot.com/, a quem agradecemos reconhecidos a sua gentileza.

Queremos, uma vez mais, partilhar este selo com todos
os nossos seguidores

“…para que se espalhem gentilezas como suaves ventos, numa grande corrente de CULTURA E PAZ…”

Esse Blog é VIP

Um Farol chamado Amizade” agradece reconhecido mais este lindo selinho que lhe foi atribuído pela querida amiga Teresa do “Blogcronicasdateresa” - http://blogcronicasdateresa.blogspot.com

As regras inerentes a este selinho, são as seguintes:

- Indicar o link do blogue que trouxe o selo até nós e oferecê-lo a quantos blogues quisermos.
- criar uma frase com “just perfect” (recomendado em inglês) e enviar a quem se indicar o selo.

Eis a nossa frase: "Just perfect, this blog is amazing!...”

Como já é nosso hábito, vamos infringir um pouco as regras quanto à atribuição deste selo. Assim, decidimos atribuí-lo a todos os nossos seguidores, a quem pedimos que o venham recolher e colocar nos seus respectivos blogs.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

La vejez existe?

LA VEJEZ, EXISTE?


Algunos de nosotros envejecemos, de hecho, porque no maduramos.

Envejecemos cuando nos cerramos a las nuevas ideas y nos volvemos radicales.

Envejecemos cuando lo nuevo nos asusta.

Envejecemos también cuando pensamos demasiado en nosotros mismos y nos olvidamos de los demás.

Envejecemos si dejamos de luchar.

Todos estamos matriculados en la escuela de la vida, donde el Maestro es el Tiempo.

La vida solo puede ser comprendida mirando hacia atrás. Pero solo puede ser vivida mirando hacia adelante.

En la juventud aprendemos; con la edad comprendemos…

Los hombres son como los vinos: la edad estropea los malos, pero mejora los buenos.

Envejecer no es preocupante: ser visto como un viejo si que lo es.

Envejecer con sabiduría no es envejecer

En los ojos del joven arde la llama, en los del viejo brilla la luz.

Siendo así, no existe edad, somos nosotros que la creamos. Si no crees en la edad, no envejecerás hasta el día de tu muerte.

Personalmente, yo no tengo edad: tengo vida!

No dejes que la tristeza del pasado y el miedo del futuro te estropeen la alegría del presente.

La vida no es corta; son las personas las que permanecen muertas demasiado tiempo

Haz del pasaje del tiempo una conquista y no una pérdida.


Y tu que opinas, envejecemos porque no maduramos?



domingo, 25 de outubro de 2009

Porque hoje não quero ser palhaço de mim

Chove dentro de mim: Uma chuva miudinha e irritante que vai tornando tudo cinzento e frio.
Não me apetece levantar, insisto comigo várias vezes e acabo por desistir chamando-me… “palhaço”.
Fecho os olhos, não quero sentir mais nada, quero estar só.
“És um palhaço, palhaço”.
Não sei porquê, da memória, qual zunido provocante de mosquito, chegam-me fragmentos de uma história lida e relida mil vezes na minha infância.
Tento enxotar a lembrança, mas em vão.

“Era uma vez um Palhaço com um nariz muito grande e uns olhos que brilhavam como estrelas. E quando ria parecia a escala musical: Dó Ré Mi Fá Sol Lá Si Dó!”

Matilde Rosa Araújo e o Palhacinho Verde! O circo da vida e o palhaço mágico.
O palhaço que encarava as agruras da vida com gargalhadas cristalinas.
As suas gargalhadas eram música.
Ri palhaço, ri-te Argos!
Continua rir, transforma a chuva miudinha em risadas e as risadas em notas de música e as notas de música em arco-íris ou estrelas e….e não é fácil!
Pois não, mas quem disse que era?
Pelo menos já sorris…

E hoje afinal quero ser palhaço de mim!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Afganita

O mineral que agora quero partilhar convosco é a Afganita, uma pedra rara mas de uma enorme beleza e que, possivelmente, muito poucos conhecem.Dada a escassez de informação acerca deste mineral, apenas falarei dele em traços gerais, privilegiando sobretudo a imagem, com a mostra de lindos exemplares cujas fotos consegui recolher.

Como o próprio nome sugere, a Afganita foi originariamente encontrada no Afganistão. Contudo, hoje pode ser também encontrada em outras regiões do mundo como o Canadá, Alemanha, Itália, Rússia e Estados Unidos da América.

É um mineral pouco comum que inclui na sua composição, sódio, cálcio, potássio e outros produtos. Pode encontrar-se muitas vezes associado a outras gemas como a sodalite, pirite, diopside e escapolite.

A Afganita aparece muitas vezes em várias tonalidades de azul, desde um pálido e translúcido azul bebé a um azul mais escuro e intenso. Porém, é mais habitual aparecer em tonalidades claras dado que a sua natureza é basicamente transparente.

A gema é frágil, pouco dura, não sendo por isso a substância ideal para certos tipos de joalharia, como braceletes e anéis, pois podem quebrar. Utiliza-se, contudo, em colares, gargantilhas e brincos. Devido à sua escassez, usa-se na maior parte das vezes associada a metais preciosos como o ouro e a prata.

Actualmente é cada vez mais difícil encontrar joalharia feita a partir desta gema, dada não só a sua escassez como também pelo facto de a sua maior ocorrência se localizar numa mina situada numa região remota do Afganistão de muito difícil acesso.

Devido à sua cor azul, a Afganita é um mineral com muita energia, sendo considerada como uma pedra de cura. Crê-se que é particularmente útil para a cura de doenças da garganta e boca, bem como para doenças do cérebro e da cabeça, em particular para a cura das enxaquecas.Muitos acreditam que a Afganita aumenta a capacidade de comunicação e ajuda na meditação e reflexão profundas.
Esta não é uma pedra tradicionalmente ligada aos nascimentos e aos aniversários nem a qualquer signo astrológico.



























terça-feira, 20 de outubro de 2009

La vida


La Vida,
es un reto
¡Afróntala!

La vida es un eterno dejar ir
solamente con las manos vacías, podrás agarrar algo nuevo.

La vida es Amor.
¡ Vívela honesta y profundamente !

La vida es esperanza.
¡ Nunca la pierdas !

La Vida es un camino.
¡ Camina siempre hacia delante !

La Vida es creer. ¡ Nunca dejes de hacerlo !

La Vida también es muerte. Morir un poco cada día.
¡ Debes estar consciente de eso !

La vida es aprender siempre, en todas partes y hasta el final.

La Vida es un regalo.
Debes estar siempre agradecido por ello.

La Vida es amistad. ¡ Cuídala !

La Vida es hermosa.
¡ Abre bien los ojos !

La Vida es Verdad. ¡ Nunca la traiciones !

La Vida es emocionante. ¡ Mantente curioso !

La Vida tiene una meta. ¡ Trata de llegar a ella !



domingo, 18 de outubro de 2009

Melancolia

Oh dôce luz! oh lua!
Que luz suave a tua,
E como se insinua E
Em alma que fluctua
De engano em desengano!
Oh creação sublime!
A tua luz reprime
As tentações do crime,
E á dôr que nos opprime
Abres-lhe um oceano!

É esse céo um lago,
E tu, reflexo vago
D'um sol, como o que eu trago
No seio, onde o afago,
No seio, onde o aperto?
Oh luz orphã do dia!
Que mystica harmonia
Ha n'essa luz tão fria,
E a sombra que me guia
N'este areal deserto!

Embora as nuvens trajem
De dia outra roupagem,
O sol, de que és imagem,
Não tem essa linguagem
Que encanta, que namora!
Fita-te a gente, estuda,
(Sem mêdo que se illuda)
Essa linguagem muda...
O teu olhar ajuda...
E a gente sente e chora!

Ah! sempre que descrevas
A orbita que levas,
Confia-me o que escrevas
De quanto vês nas trevas,
Que a luz do sol encobre!
As victimas, que escutas,
De traças mais astutas
Que as d'essas féras brutas...
E as lastimas, as luctas
Da orphã e do pobre!

(João de Deus, in 'Ramo de Flores')

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

"Mojado" - Ricardo Arjona

Mojado
(Ricardo Arjona)

Empaco un par de camisas, un sombrero,
su vocación de aventurero,
6 consejos, 7 fotos, mil recuerdos.

Empaco sus ganas de quedarse,
su condición de transformarse
en el hombre que soñó y no ha logrado.

Dijo adiós con una mueca disfrazada de sonrisa.
Y le suplico a su Dios crucificado en la repisa
el resguardo de los suyos.
Y perforo la frontera como pudo.

Si la luna suave se desliza
por cualquier cornisa sin permiso alguno.
Porque el mojado precisa
comprobar con visas que no es de neptuno.

El mojado tiene ganas de secarse.
El mojado esta mojado
por las lágrimas que bota la nostalgia.

El mojado, el indocumentado
carga el bulto que el legal
no cargaría ni obligado.

El suplicio de un papel
lo ha convertido en fugitivo.
Y no es de aquí porque su nombre no aparece en los archivos,
ni es de allá porque se fue.

Si la luna suave se desliza
por cualquier cornisa sin permiso alguno.
Porque el mojado precisa
comprobar con visas que no es de neptuno.

Mojado,
Sabe a mentira tu verdad,
sabe a tristeza la ansiedad
de ver un freeway y soñar
con la vereda que conduce hasta tu casa.

Mojado,
Mojado de tanto llorar
sabiendo que en algún lugar
te espera un beso haciendo pausa
desde el día en que te marchaste.

Si la luna suave se desliza
por cualquier cornisa sin permiso alguno.
Porque el mojado precisa
comprobar con visas que no es de neptuno.

Si la visa universal se extiende
el día en que nacemos
y caduca en la muerte.
Porque te persiguen mojado,
si el cónsul de los cielos
ya te dio permiso.


terça-feira, 13 de outubro de 2009

Os Poetas do Parque

Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)

Parte 2

Poeta, contista e ficcionista português, Mário de Sá-Carneiro é um dos grandes expoentes do Modernismo em Portugal e um dos mais reputados membros da Geração d’Orpheu.
Neste segundo passeio pelo Parque dos Poetas, iremos tratar do reflexo da personalidade de Sá-Carneiro em toda a sua obra.
A Personalidade

Na fase inicial da sua obra, Mário de Sá-Carneiro demonstra influências do decadentismo e até do saudosismo, numa estética do vago, do complexo e do metafísico. Adere posteriormente às correntes de vanguarda do paúlismo, do sensacionismo e do interseccionismo, apresentadas por Fernando Pessoa.
O delírio e a confusão dos sentidos são as marcas de uma personalidade exageradamente sensível ao ponto da alucinação, com reflexos numa imagística exuberante. Em toda a obra está patente a sua egolatria, um narcisismo, uma procura de exprimir o inconsciente e a dispersão do eu no mundo, numa tentativa da busca constante do seu próprio eu. Trata-se duma inadaptação, fruto da insatisfação das suas carências, que o irão levar a um sentimento de abandono e a uma poesia auto-sarcástica, expressa em poemas como “Serradura”, “Aqueloutro” ou “Fim”, revendo-se o poeta na imagem de um menino inútil e desajeitado, como em “Caranguejola”:
“Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!”

Tudo isto revela uma forte crise de personalidade, traduzida no frenesim da experiência sensorial e no desejo do extravagante. Foram a inadequação, a solidão, a incapacidade de viver e de sentir o que desejava, que o levaram a uma tentativa de dissolução do ser, consumada na morte por suicídio.
A Obra

Embora muito do que Mário de Sá-Carneiro produziu tivesse sido publicado em vida, dispersamente pelas publicações em que participou, como as Revistas “Orpheu” e “Portugal Futurista”, muitos dos seus escritos só viriam a público postumamente.
"Amizade" (1912)

Estreia-se na literatura com a peça teatral “Amizade”, cuja autoria divide com o seu colega de liceu, Tomás Cabreira Júnior, que viria a suicidar-se no ano seguinte. Por sorte, na altura, o manuscrito desta peça encontrava-se em poder de Mário de Sá-Carneiro pois, doutra forma não teríamos hoje acesso a ele, já que Tomás Cabreira Júnior destruiu toda a sua obra antes de se suicidar.

"Princípio" (1912)
É um conjunto de contos e novelas, entre os quais “Loucura”, “O Sexto Sentido”, “Diários” e “O Incesto”.
Loucura
“Loucura?! - Mas afinal o que vem a ser a loucura?...Um enigma... Por isso mesmo é que às pessoas enigmáticas, incompreensíveis, se dá o nome de loucos...
Que a loucura, no fundo, é como tantas outras, uma questão de maioria.(...) A maior parte dos homens adoptou um sistema determinado de convenções. É a gente de juízo...Pelo contrário, um número reduzido de indivíduos vê os objectos com outros olhos, chama-lhes outros nomes, pensa de maneiras diferentes, encara a vida de modo diverso. Como estão em minoria...são loucos...”
Incesto
"(…)Um artista pode sofrer muito, ser muito infeliz até à morte. Acredito mesmo que entre os artistas se enfileirem alguns dos grandes desgraçados da terra. No entanto, na desventura de um artista, por mais amarga que ela tenha sido, brilhou sempre um raio de sol. A sua desgraça não foi de certeza a de uma existência vazia e desoladora - que é a maior e mais real miséria deste mundo(…)"
"A Confissão de Lúcio" (1912)
Com este conto, Mário de Sá-Carneiro estreia-se no romance. Trata-se duma obra cuja temática se desenrola à volta do fantástico e se apresenta como marcante de uma época de vanguarda em que Sá-Carneiro se afirmou como um dos expoentes máximos do Modernismo português.

Em “A Confissão de Lúcio”, Mário de Sá-Carneiro explora as sensações experimentadas por todos os sentidos, por meio de elementos sensoriais que vão desde o perfume até à cor. Publicada dois anos antes do escritor se suicidar, a obra tem um enredo inquietante que mexe com o imaginário do leitor. Nela, o personagem principal que é preso e condenado a dez anos de prisão por um crime que não cometeu, acaba por nem saber ao certo se o crime aconteceu de facto. Trata-se duma narrativa curta, toda ela envolta em mistério e que denuncia o momento conturbado por que passava na época o próprio autor. É uma das obras mais importante de Mário de Sá-Carneiro porque nela transparecem três das suas obsessões dominantes: o suicídio, o amor pervertido (homossexualidade) e o anormal, obsessões estas que acabaram por o levar à loucura.
“Ricardo deteve-se um instante, e de súbito, em outro tom: - É isto só: - disse... Não proteste… Eu não sou seu amigo. Nunca soube ter afectos (já lhe contei), apenas ternuras. A amizade máxima, para mim, traduzir-se-ia unicamente pela maior ternura. E uma ternura traz sempre consigo um desejo caricioso: um desejo de beijar… de estreitar… Enfim: de possuir! (…) Para ser amigo de alguém (visto que em mim a ternura equivale à amizade) forçoso me seria antes possuir quem eu estimasse, ou homem ou mulher. Mas uma criatura do nosso sexo, não a podemos possuir…”
"Dispersão" (1914)
É a primeira obra de poesia de Mário de Sá-Carneiro apresentada a público. Composta por doze poemas, a sua primeira edição foi revista pelo autor e por Fernando Pessoa.
A poética de Sá-Carneiro afasta-se aqui de uma preocupação meramente formal da experiência literária, mas nela fundamenta as suas interrogações e a afirmação dos anseios que dão sentido à sua existência mas para as quais não encontra resposta.


Os títulos dos doze poemas de “Dispersão” são: “Partida”, “Escavação”, “Inter-Sonho”, “Álcool”, “Vontade de dormir”, “Dispersão”, “Estátua falsa”, “Quase”, “Como eu não possuo”, “Além-tédio”, “Rodopio” e “A queda”.
Alcool
“(…)Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eterizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante –
Manhã tão forte que me anoiteceu.(…)”

Dispersão
“Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida... (...)

Desceu-me n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.”

"Quase” é talvez o poema de Sá Carneiro que melhor exprime a obsessão do fracasso da existência, sugerindo simultaneamente a vivência ideal através de símbolos e de processos postos em voga pelos decadentistas.

Neste poema manifesta-se esse abismo entre o sentimento do que o poeta julga ser e a incapacidade de alcançar o que deseja, agravado pela circunstância de pouco ter faltado para lá chegar. A primeira e última quadras constituem a chave que explica o motivo de toda a desilusão enunciada no corpo do poema. O poeta não conseguiu ser feliz apenas por lhe faltar só esse “quase” e só por pouco julga não ter chegado aonde o sonho o levou. Faltou pouco para ter vivido o amor e a plenitude e, se a tivesse alcançado, teria transcendido a condição humana para se confundir com o céu e as suas divindades: “Um pouco mais de azul – eu era além”. Daí o seu lamento obsessivo, pois quem não deseja não sofre: “Se ao menos eu permanecesse aquém...”.

Domina-o o sentimento de não ter cumprido o seu destino, destino este de que apenas encontra “indícios”. Assalta-o a sensação de estar fechado dentro de si mesmo, sem poder chegar ao absoluto: “Ogivas para o sol – vejo-as cerradas”. E continua dizendo que não foi capaz de chegar lá, embora estivesse tão perto: “faltou-me um golpe de asa”.

Este é o seu drama real em forma de poema. O drama de ser um falhado na vida, o drama de todas as gerações que se consideram perdidas.

Quase

“Um pouco mais de sol – eu era brasa.
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao mesmos eu permanecesse aquém…
(…)
Num ímpeto difuso de quebranto.
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…

"Céu em Fogo" (1915)

Este é mais um conjunto de doze novelas reunidas num volume, onde Mário de Sá-Carneiro revela igualmente todas as perturbações e obsessões já expressas na sua poesia.

Em novelas como "A grande sombra", "O homem dos sonhos", "Eu-próprio o Outro" e "Ressurreição", o duplo que caracteriza Sá-Carneiro manifesta-se nos conflitos psíquicos dos personagens, que expressam a inadaptação social, a crise de identidade e a divisão da personalidade. Os processos de desdobramento vividos pelos personagens fazem parte de uma espécie de processo iniciático ou de auto-conhecimento, despertando neles o duplo sentimento de medo e fascinação. Verifica-se a manifestação do duplo através do sonho, do delírio, da projecção do "eu" no outro, com uma transposição do tempo e espaço convencionais, que conduzem à fragmentação da realidade.

Sá-Carneiro dá-nos nestes textos, ao mesmo tempo complicados e ternos, mas de deslumbrante beleza, uma prosa poética nervosa e desesperada desses loucos anos dos inícios do século XX.

Ressurreição

“(…)Em pequenos, adoecemos gravemente duma enfermidade dolorosa que nos leva às portas da morte -fora até o caso do romancista, aos dois anos, com uma febre tifóide. Essa enfermidade existiu para os outros, que presenciaram as nossas dores, que nos viram sofrer, gritar, febricitar. Porém a realidade é que, embora os nossos gritos, não existiram para nós -porquanto os anos passaram, e nem a mínima reminiscência nos ficou dessas dores, porventura cruciantes.(…)”

O Homem dos Sonhos

“Nunca soube o seu nome. Julgo que era russo, mas não tenho a certeza. Conheci-o em Paris, num Chartier gorduroso de Boul'Mich, nos meus tempos de estudante falido de Medicina.
(…)
E eis como eu pude entrever o infinito. O homem estranho sonhava a vida, vivia o sonho. Nós vivemos o que existe; as coisas belas, só temos força para as sonhar. Enquanto que ele não. Ele derrubara a realidade, condenando-a ao sonho. E vivia o irreal.
Poeira a ascender quimerizada...
Asas d'ouro! Asas d'ouro! ...”

"Indícios de Oiro" (1937)

É talvez o mais significativo conjunto de trabalhos de toda a obra de Sá-Carneiro. Trata-se de uma obra póstuma publicada em 1937 pela revista “Presença”, que conta com 32 poemas autógrafos escritos em vários locais (Paris, Lisboa, Camarate, Barcelona) e em várias datas (1913 Jun. a 1915 Dez.).

Epígrafe

A sala do castelo é deserta e espelhada.

Tenho medo de Mim. Quem sou? Donde cheguei? ...
Aqui, tudo já foi ... Em sombra estilizada,
A cor morreu — e até o ar é uma ruína ...
Vem de Outro tempo a luz que me ilumina —
Um som opaco me dilui em Rei ...


(Paris, 2-7-1914)

Nossa Senhora de Paris
Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir... Onde acoitar-me?...
Os braços duma cruz
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar
Um cheiro a maresia
Vem-me refrescar,
Longínqua melodia
Toda saudosa a Mar...
Mirtos e tamarindos
Odoram a lonjura;
Resvalam sonhos lindos...
Mas o Oiro não perdura
E a noite cresce agora a desabar catedrais...
Fico sepulto sob círios,
Escureço-me em delírios
Mas ressurjo de Ideais...
– Os meus sentidos a escoarem-se...
Altares e velas...
Orgulho... Estrelas...
Vitrais! Vitrais!
Flores de Lis...
Manchas de cor a ogivarem-se...
As grandes naves a sagrarem-se...
– Nossa Senhora de Paris!...

(Paris, 15-6-1913)

Correspondência

A sua correspondência foi também reunida em volumes póstumos, dela fazendo parte: Cartas a Fernando Pessoa (2 vols., 1958-1959), Cartas de Mário de Sá-Carneiro a Luís de Montalvor, Cândia Ramos, Alfredo Guisado e José Pacheco (1977) e Correspondência Inédita de Mário de Sá-Carneiro a Fernando Pessoa (1980).

A leitura e análise das "Cartas a Fernando Pessoa" são fundamentais para o bom entendimento de toda a obra de Mário de Sá Carneiro.

Traduções

De Mário de Sá-Carneiro existe ainda uma tradução, em parceria com António Ponce de Leão, da peça “Les Fossiles”, de François de Curel.


Mário de Sá-Carneiro foi um homem insatisfeito e inconformista que nunca se conseguiu entender com a maior parte dos que o rodeavam, nem tão pouco ajustar-se à vida prática, devido às suas dificuldades emocionais. Foi também um incompreendido, pelo modo como os seus contemporâneos olhavam a sua poesia. Porém, profetizou acertadamente que no futuro se faria jus à sua obra e nisso não falhou.

Com efeito, reconhecido no seu tempo apenas por uma fina élite, à medida que a sua obra e correspondência foram sendo publicadas, tornou-se acessível e aceite pelo grande público, sendo actualmente considerado um dos maiores expoentes da literatura moderna em língua portuguesa.

Embora não tenha a mesma repercussão de Fernando Pessoa, a sua genialidade é tão grande, senão mesmo maior que a de Pessoa mas, porém, muito mais próxima da loucura que a do seu grande amigo. Fernando Pessoa foi, na realidade o seu único amigo, aquele que o compreendeu e ajudou conforme pôde. Foi a ele que Sá-Carneiro escreveu um bilhete antes de se suicidar:"Um grande, grande adeus do seu amigo Mário de Sá-Carneiro”.

Para os leitores e para o consenso literário, a contradição em Sá-Carneiro é profunda. Longe de não ter alcançado o que desejava, longe de lhe ter faltado só um “quase” para chegar ao seu destino, Mário de Sá-Carneiro voou muito para além do que sonhou. A sua obra é plena, grande, genial, de uma beleza.

Autores: Argos e Tétis

domingo, 11 de outubro de 2009

Abraço


A nossa amiga Teresa, de Blogcronicasdateresa - http://blogcronicasdateresa.blogspot.com/ - enviou um abraço aos “amigos do Farol”.
Esse abraço vem acompanhado de um pequenino desafio que consiste em responder a três perguntas:

1 - Quem mais gostas de abraçar no presente?
2 - Quem nunca abraçarias?
3 - Quem davas tudo para poder abraçar?

Em seguida devemos passar esse abraço a alguns amigos escolhidos.
Mas nós alteramos um bocadinho as regras e, em vez de o passarmos a alguns amigos, deixamo-lo aqui para quem o quiser levar.

Desde já o nosso obrigado a todos os que quiserem participar e um abraço muito grande à amiga Teresa por se ter lembrado de nós.

As minhas respostas…

1 - Quem mais gostas de abraçar no presente?
A minha mãe.
Sei que todos sentem que as suas mães são as melhores do mundo, mas a minha é mesmo muito especial!

2 - Quem nunca abraçarias?
A maioria dos “Senhores do Mundo”, seja qual for a área em que estão inseridos.
Sinceramente? Nem um aperto de mão quanto mais um abraço.

3 - Quem davas tudo para poder abraçar?
O meu avô. Um homem maravilhoso, de poucas palavras que me ensinou a VER.

Nota: Aqui no Farol, respondemos aos desafios à vez, desta coube ao Argos.

Um grande abraço para todos

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Paris


Cette semaine je suis allé à PARIS pour passer un examen professionnel.
Alors je vous propose un petit voyage avec moi dans PARIS vous voulez venir voir ?

La tour Montparnasse est bâtie entre 1969 et fin 1972 sur l'emplacement même de l'ancienne gare Montparnasse et inaugurée en 1973. Le chantier nécessite le déblaiement de 420 000 m3 de gravats. Les fondations de la tour sont constituées de 56 piliers en béton armé s'enfonçant à 70 mètres sous terre.

Après sa construction, la tour fut vivement critiquée. Ses détracteurs la trouvaient (et la trouvent toujours) dérangeante à cause de sa hauteur disproportionnée par rapport au reste de la ville de Paris.


La Tour Montparnasse mesure 210 mètres de haut, et sa base a la forme d'une amande de 50 × 32 mètres, avec une échancrure triangulaire à ses deux extrémités. Elle pèse 150 000 tonnes, compte 4 niveaux souterrains et 59 étages de 1 700 m2 en moyenne chacun, le tout surmonté d'une terrasse sur le toit, pour un total de 120 000 m2.

Plus de 3000 personnes sont présentes dan la Tour Montparnasse


Paris est la capitale économique et commerciale de la France, sa première place financière et boursière. La densité de son réseau ferroviaire, autoroutier et sa structure aéroportuaire, plaque tournante du réseau aérien français et européen, en font un point de convergence pour les transports internationaux. Cette situation est issue d’une longue évolution, en particulier des conceptions centralisatrices des monarchies et des républiques, qui donnent un rôle considérable à la capitale dans le pays et tendent à y concentrer à l’extrême les institutions. Depuis les années 1960, les gouvernements successifs ont développé des politiques de déconcentration et de décentralisation afin de rééquilibrer le pays.

Paris est, avec ses 13 millions d'habitants, la deuxième agglomération la plus peuplée d’Europe derrière Moscou (plus de 15 millions) et devant Istambul (12,6 millions), et l'agglomération la plus peuplée de l'Union Européenne Paris, avec un PIB de 164 Md$ est un acteur économique européen majeur. Elle est au coeur de l'Ile-de-France, première région économique européenne.

Un peu de musique :
J’aime beaucoup la musique de Marc Lavoine qui est un chanteur français né le 6 août 196 à Long jumeau en région parisienne. En 1985, son tube Elle a les yeux revolver le propulse en haut des classements et marque le début de sa reconnaissance sur la scène française.

Marc Lavoine & Christina Marocco- J'ai tout oublié

Marc Lavoine & Souad Massi - Paris

Elle a les yeux révolver-Marc Lavoine

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Rio 2016

“Um Farol chamado Amizade” e o nosso amigo e colaborador do Brasil, “O Mar”, vêm saudar, felicitar e congratularem-se com a escolha do Rio de Janeiro para a realização das Olimpíadas de 2016.

Para nós, portugueses, esta escolha tem um significado muito especial pois, além de ter recaído no nosso querido país irmão e de ter a sua estreia na América Latina, é a primeira vez que nos Jogos Olímpicos se vai ouvir e falar, “oficialmente”, a língua de Camões. Estes irão ser os verdadeiros Jogos da Lusofonia.

E, para assinalar este grandioso acontecimento, nada melhor do que partilharmos com todos vós o vídeo oficial de apresentação do Rio 2016.



E não ficamos por aqui, pois ainda temos este belíssimo texto que nos enviou o nosso colaborador e amigo “O Mar”:

“Chegou a vez do Brasil! O Rio de Janeiro foi a cidade escolhida para sediar as Olimpíadas de 2016, a primeira a ser realizada na América do Sul. Esse fato histórico merece um registro especial, o que faço através de um vídeo convite. Num passeio aéreo a cidade do Rio de Janeiro é cantada ao som da música “Samba do avião” de Tom Jobim.

Vamos fazer esse passeio juntos?”



Parabéns BRASIL !!!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Amália Rodrigues - A Raínha do Fado

(01-07-1920 / 06-10-1999)

Faz hoje 10 anos que nos deixou para sempre a Rainha do Fado, aquela que levou o nome de Portugal, a cultura portuguesa, a língua de Camões e o Fado a todos os cantos do mundo – Amália Rodrigues.

Como forma de a homenagear e a recordar neste dia, tentaremos resumir a sua extensa biografia, o que, diga-se desde já, não é obra fácil!...

A infância e a juventude

Amália da Piedade Rodrigues, filha de pais naturais da Beira Baixa, terá nascido, segundo o seu assento de nascimento, no dia 23 de Julho de 1920, em Lisboa, na freguesia da Pena. Amália pretendia, no entanto, que o seu aniversário fosse celebrado a 1 de Julho ("no tempo das cerejas"), dizia: “talvez por ser essa a altura do mês em que havia dinheiro para me comprarem os presentes”.

Os seus pais, por dificuldades de subsistência, regressam para a Beira Baixa deixando Amália, a quinta de nove filhos, em Lisboa a cargo dos avós maternos.

Cedo se revela a sua faceta de cantora. Amália era muito tímida, mas começa a cantar tangos de Carlos Gardel e canções populares que ouvia, a pedido do avô e dos vizinhos.

Aos 9 anos, a avó manda-a frequentar a Escola Primária da Tapada da Ajuda. É numa festa da escola que Amália canta pela primeira vez em público. Porém, devido a dificuldades económicas, é obrigada, aos 12 anos, a interromper a frequência da escola.

Trabalha então como bordadeira, engomadeira e depois como tarefeira nas fábricas de bolos da Pampulha, em Lisboa.

Aos 14 anos decide ir viver com os pais, que regressaram entretanto a Lisboa, e passa a viver na zona operária junto ao Tejo.

Aos 15 anos vai vender fruta, juntamente com a mãe e a irmã Celeste (mais tarde outra fadista de renome), para a zona do Cais da Rocha, e torna-se notada devido ao especialíssimo timbre da sua voz.

Nas festividades de Santo António de Lisboa, em 1936, integra a Marcha Popular de Alcântara, depois dos seus responsáveis a terem ouvido cantar na rua. Canta como solista o “Fado de Alcântara”, ficando as marchas populares para sempre no seu reportório.

É em 1939 que se estreia como fadista profissional no “Retiro da Severa”, a casa de fados mais importante da época, a par com grande nomes do fado como Armandinho, Jaime Santos, José Marques, Santos Moreira, Abel Negrão e Alberto Correia. Interpreta três fados.

Conhece nessa altura o seu futuro marido, Francisco da Cruz, um guitarrista amador, com quem casará em 1940, casamento que apenas dura dois anos.

A carreira

Alcança grande êxito no Retiro da Severa e o seu sucesso espalha-se por toda a Lisboa, tornando-se a vedeta do fado com uma rapidez notável.

Passa a actuar também no Solar da Alegria, no Café Mondego e no Café Luso, como artista exclusiva e já com reportório próprio. Ao tornar-se o nome mais conhecido de todos os cantores de fado, faz com que por onde actue as lotações se esgotem. Em poucos meses atinge tal reconhecimento e popularidade que o seu cachet é o maior até então pago a fadistas.

Estreia-se no teatro de revista em 1940, no Teatro Maria Vitória, como atracção convidada da peça “Ora Vai Tu”. É aí que Amália inventa a fadista vestida de negro e com xaile negro. Muitas outras estreias em revistas se seguem, onde canta alguns dos fados que virão a ser alguns dos seus grandes sucessos.

No meio teatral que encontra o compositor Frederico Valério que, compreendendo toda a beleza da sua voz, virá a compor-lhe muitos dos seus fados de grande êxito.

Em 1943, após o seu divórcio, actua pela primeira vez fora de Portugal. A convite do embaixador Pedro Teotónio Pereira canta em Madrid. Aí assiste a grandes espectáculos de flamenco, música com a qual se identifica. É a esta viagem que Amália atribuía o seu prazer em cantar canções espanholas e flamenco.

Em 1944 consegue um papel proeminente, ao lado de Hermínia Silva, na opereta “Rosa Cantadeira”, onde interpreta o “Fado do Ciúme” de Frederico Valério.
Em Setembro do mesmo ano, chega ao Rio de Janeiro acompanhada pelo maestro Fernando de Freitas para actuar no Casino Copacabana. Aos 24 anos Amália tem já um espectáculo concebido em exclusivo para ela. A recepção é de tal forma entusiástica que o seu contrato inicial de 4 semanas se prolongará por 4 meses. É convidada a repetir a tournée, acompanhada por bailarinos e músicos.

É no Rio de Janeiro que Frederico Valério compõe um dos mais famosos fados de todos os tempos: “Ai Mouraria”, estreado no Teatro República.

É também no Brasil que Amália grava os primeiros discos de 78 rotações, que serão vendidos em vários países, motivando grande interesse das companhias de Hollywood.

Em 1947 estreia-se no cinema com o filme “Capas Negras”, o filme mais visto em Portugal até então, ficando 22 semanas em exibição. Um segundo filme, do mesmo ano, é “Fado, História de uma Cantadeira”, cuja interpretação lhe valeu o Prémio SNI para a melhor actriz de cinema.

Amália é apoiada por artistas nacionalistas como Almada Negreiros e António Ferro. É este que, em 1949, a convida a cantar pela primeira vez em Paris no Chez Carrère e em Londres no Ritz, em festas do departamento de Turismo que o próprio artista organiza.

A internacionalização de Amália aumenta com a participação, em 1950, nos espectáculos do Plano Marshall, o plano de apoio dos EUA à Europa do pós-guerra, em que participam os mais importantes artistas de cada país. O êxito repete-se por Trieste, Berna, Paris, Berlim e Dublin. É durante um espectáculo nesta cidade, onde canta a canção Coimbra que, atentamente escutada pela cantora francesa Yvette Giraud, esta a virá a popularizar em todo o mundo como “Avril au Portugal”. Em Roma, Amália actua no Teatro Argentina, sendo a única artista ligeira num espectáculo em que figuram os mais famosos cantores da chamada música clássica.

Em 1951 estreia “Vendaval Maravilhoso”, um filme de Leitão de Barros e um dos preferidos de Amália entre aqueles em que participou. Faz neste mesmo ano uma digressão por África, cantando em Moçambique, Angola e Congo Belga.

Em 1952 canta em Nova Iorque, onde ficou 14 semanas em cartaz e faz as primeiras gravações nos estúdios da EMI, em Londres.
Em 1953 Amália torna-se na primeira artista portuguesa a actuar na televisão americana no famoso programa Coke Time with Eddie Fisher. Canta nesse mesmo ano em Genebra, Lausana e Madrid.
É de 1954 também o seu primeiro álbum, “Amália Rodrigues Sings Fado From Portugal And Flamenco From Spain”, publicado nos EUA pela Angel Records.


No ano 1955 participou no filme “Os Amantes do Tejo”, de Henri Verneuil, onde interpreta a “Canção do Mar” e “Barco Negro”. Filma no México “Musica de Siempre” com Edith Piaf.
A 10 de Abril de 1956 estreou-se no famoso Olympia, de Paris, numa das festas de despedida de Josephine Baker. Começa a cantar em francês e Charles Aznavour escreve para ela “Aie, Mourrir pour Toi”.

Em Novembro de 1958 estreia-se na televisão portuguesa no papel principal da peça “O Céu da Minha Rua”, adaptada de uma peça de Romeu Correia.

É nesta época que Amália canta os grandes poetas da língua portuguesa, Camões, Bocage, além dos poetas que escrevem para ela, Pedro Homem de Mello, David Mourão Ferreira, Ary dos Santos, Manuel Alegre, Alexandre O’Neill. Conhece também Alain Oulman que lhe compõe várias músicas.

O seu fado de Peniche é proibido por ser considerado um hino aos presos políticos que se encontravam presos em Peniche. Amália escolhe para cantar um poema de Pedro Homem de Mello, “Povo que lavas no rio” que ganha também uma dimensão política.

Em 1961 confirmam-se os boatos que desde há muito andam no ar, Amália casa-se no Rio de Janeiro com o engenheiro César Seabra e anuncia que vai abandonar a carreira artística passando a viver no Brasil. Um ano depois, contudo, Amália regressa a Lisboa.

Em 1963, em Beirute, é tal o seu prestígio que a convidam a acompanhar com os seus fados uma Missa de Acção de Graças pela independência do Líbano. E irá continuar sempre a voltar a vários países que não se cansam de a reclamar.

Em 1965, Amália atinge a sua melhor interpretação no cinema em “As Ilhas Encantadas”, filme baseado numa novela de Herman Melville. Neste filme, diferente de todos os outros da sua carreira, Amália pela primeira vez não canta. Volta a receber o prémio de melhor actriz e no ano seguinte aparece no filme francês “Via Macau”.

Em 1966 é editado o primeiro disco em que recria o folclore, a que mais dois se seguirão. Com uma grande orquestra sinfónica, actua no Lincoln Center, em Nova Iorque, e no Hollywood Bowl, em Los Angeles. Canta em França, Israel, Brasil, África do Sul, Angola e Moçambique. Neste mesmo ano, Amália gravou “Concerto de Aranjuez”, com uma letra em francês, e “Vou Dar De Beber À Dor”, de um compositor até então desconhecido, Alberto Janes, que se tornará num dos maiores êxitos de Amália, com mais de 100 mil cópias vendidas.

Em 1967, em Cannes, recebe das mãos do actor Anthony Quinn, o prémio MIDEM (Disco de Ouro), destinado a premiar o artista que mais discos vende no seu país, proeza só alcançada pelos Beatles. Amália voltará a receber este prémio em 1968 e 1969.

Em 1969 canta na União Soviética e em Janeiro de 1970, Amália parte para Roma para actuar no Teatro Sistina. O sucesso foi tal que o fenómeno "Amália" se espalha por Itália. Começava então "La Folia per La Rodrigues". Amália canta pela primeira vez em Tóquio e no Japão que, apesar de tão longínquo e com uma cultura tão diferente, se rende ao seu fascínio. Desde então sucedem-se outras tournées pelo Japão abrangendo várias cidades. Todos os seus discos são editados nesse país, que com ela tanto se identifica. Era frequente, quando Amália partia para o Japão, todos os seus espectáculos estarem já esgotados. Amália lançou, deste modo, uma verdadeira ponte cultural entre Portugal e o Japão.

Em 1972 estreia-se no Canecão do Rio de Janeiro com “Um Amor de Amália”, espectáculo onde, pela primeira vez, Amália canta e conta histórias da sua vida. Tal é o sucesso que o show é repetido no ano seguinte. Neste espectáculo Amália é acompanhada, para além da guitarra e da viola, por uma orquestra e um coro.


Após o 25 de Abril

No dia seguinte ao 25 de Abril de 1974, Amália, devido a um contrato que tinha para actuar na televisão espanhola, parte para Madrid. Em Lisboa, a grande popularidade internacional de Amália fez com que de imediato circulassem boatos que estaria ligada ao regime deposto. Embora só ligeiramente prejudicando a sua carreira, estes boatos afectaram gravemente a sensibilidade da artista. Apesar dos boatos, Amália aparece logo de imediato no Coliseu dos Recreios onde 5 mil pessoas a aplaudem de pé, provando que o seu público nunca a abandonou. A partir dessa altura, faz as mais longas tournées por Portugal e o seu sucesso internacional continuou a aumentar fazendo tournées por todo mundo.
São-lhe também prestadas grandes homenagens, sendo condecorada com o grau de “Oficial da Ordem do Infante D. Henrique”, pelo então presidente da República Mário Soares. Em 1990, em França, depois de ter recebido a “Ordem das Artes e das Letras” recebe também, das mãos do presidente Mitterrand, a “Légion d'Honneur”.

Ao longo dos anos vê desaparecer o seu grande amigo e compositor Alain Oulman, o seu poeta David Mourão-Ferreira e o seu marido César Seabra, com quem era casada havia 36 anos.

Em 1997 é editado pela Valentim de Carvalho o seu último álbum, “Segredo”, com gravações inéditas realizadas entre 1965 e 1975. Amália publica um livro de poemas, “Versos”.

Em 1998 é-lhe feita uma homenagem nacional na Feira Mundial de Lisboa, na “Expo 98”.

A 6 de Outubro de 1999, Amália Rodrigues morre com 79 anos, pouco depois de regressar da sua casa de férias no litoral alentejano. No seu funeral centenas de milhares de lisboetas descem à rua para lhe prestar uma última homenagem.

Sepultada no Cemitério dos Prazeres, o seu corpo é, após grande pressão dos seus admiradores, posteriormente trasladado para o Panteão Nacional, em Lisboa, onde repousam as personalidades consideradas expoentes máxi
mos da nacionalidade portuguesa.

Amália Rodrigues representou Portugal em todo o mundo, de Lisboa ao Rio Janeiro, de Nova Iorque a Roma, de Tóquio à União Soviética, do México a Londres, de Madrid a Paris.

Ninguém como Amália propagou e difundiu de forma tão universal a cultura portuguesa, a língua portuguesa e o Fado.