sábado, 18 de julho de 2015

Súplica


SÚPLICA

Mortos que em certas horas me falais

Com a vossa mudez ou murmúrios subtis,

Dizei: Custa muito morrer?

Há lá, por esse mundo, uma outra vida,

Que valha a pena viver?



Mortos que em certas horas me tocais

Com a vossa mão fria,

Dizei-me: Com a morte tudo acaba,

Ou, como se nascêssemos de novo,

Um novo mundo principia?



Nada sei.

Sou inexperiente na morte,

Pois não morri ainda

Queria saber desvendar

Se com a morte que tomba

Alguma coisa começa,

Ou, se pelo contrário, tudo finda.



Esses que amei, com quem vivi, felizes,

Num mundo de amarguras povoado

De novo, poderei tornar a vê-los,

Felizes ao meu lado?



Ilusões, quem as criou,

É um benfeitor

Que merece guarida!

Dai-me a ilusão, todos vós que morrestes,

De uma outra vida melhor

Para além desta vida.

(Alfredo Brochado)

terça-feira, 14 de julho de 2015

Nec caput nec pedes habet ( e também sem fim) II



Era uma vez um vendedor de sonhos impossíveis que de tantos vender acreditou na sua possibilidade.
Tornou-se arquitecto e construiu para si uma casa sem portas mas com muitas janelas. Para entrar só se impunha uma condição: Asas.
Com a ajuda dessas asas a casinha principiou a subir, cada vez mais alto em direcção ás estrelas.
Por baixo nuvens amenas, por cima a luz dos astros.
Num impulso começou a escrever os seus sonhos, as asas ajudariam a afastar os medos.
Mas o tempo é caprichoso e o seu sopro espalhou as letras…

    T     H
                    J
     P          L 
          M
J

                      G

    E
L

E  ele percebeu  que letras espalhadas não têm pés nem cabeça e que até o tempo vendido por um sonhador tem afinal um fim.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Acróstico de Puntualidad..




      

  P U N T U A L I D A D

                         P untualidad
              RigU rosidad
    diligeN cia
                  T iempo
                         U na actitud
                A ntes
                         L os demás
         PrecI sión
                             D urante todo
             A
                                       D ebe ser un hábito

terça-feira, 7 de julho de 2015

Hortênsia



HORTÊNSIA

Um dia fui aos Açores

e os olhos ficaram lá

enfeitiçados de amores

pelas hortênsias que há.



Bordam montes e caminhos

fazem da terra um jardim,

por isso não admira

que o seu povo cante assim:



“Quando há procissão no céu

e têm falta de andores

os anjos vêm buscar

as nove ilhas dos Açores”



Também há no continente

esta flor maravilhosa.

No Norte chamam-lhe hidrângea.
Branca, azul, lilás ou rosa.


 Rosa Lobato Faria,
in "ABC das Flores e dos Frutos em rima infantil"














sábado, 4 de julho de 2015

Sou eu

Sou Eu

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo, 
Espécie de acessório ou sobressalente próprio, 
Arredores irregulares da minha emoção sincera, 
Sou eu aqui em mim, sou eu. 

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou. 
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma. 
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim. 

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente, 
Como de um sonho formado sobre realidades mistas, 
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico, 
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima. 

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua, 
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda, 
De haver melhor em mim do que eu. 

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa, 
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores, 
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho, 
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas, 
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida. 

Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica, 
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar, 
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo — 
A impressão de pão com manteiga e brinquedos 
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina, 
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela, 
Num ver chover com som lá fora 
E não as lágrimas mortas de custar a engolir. 

Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado, 
O emissário sem carta nem credenciais, 
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro, 
A quem tinem as campainhas da cabeça 
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima. 

Sou eu mesmo, a charada sincopada 
Que ninguém da roda decifra nos serões de província. 

Sou eu mesmo, que remédio! ... 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa