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sábado, 18 de junho de 2011

José Saramago - 1 ano de Saudade


Na data que assinala o 1º aniversário da morte de José Saramago, deixo-vos com uma notícia desse facto, prestando deste modo a minha singela homenagem ao Nobel Português da Literatura.

«Um ano sem José, mas cheio de Saramago»

Pilar del Rio, viúva do escritor, assinala iniciativas do primeiro aniversário da morte do Nobel da Literatura

Na véspera do dia em que se completa um ano sobre a morte de José Saramago, Pilar del Rio, viúva do escritor, considera que «este último ano foi, em geral, um ano com Saramago». «Saramago esteve muito presente nas análises políticas e nas análises literárias, foi um ano em que se foram lendo os livros dele, em que se recorreram às propostas dele em várias ocasiões. Foi um ano cheio de Saramago, apesar de a nível pessoal o José não ter estado», afirmou, em jeito de balanço, quando questionada na TVI24 sobre o sentimento mais íntimo da ausência do companheiro.

Em entrevista ao «Diário da Tarde», da TVI24, Pilar del Rio sublinhou que o jardim junto à Casa dos Bicos, em Lisboa, é o sítio ideal para depositar as cinzas do escritor porque é «um acto que obedece a uma lógica poética». A viúva do prémio Nobel português da Literatura realçou que o marido «vai ficar debaixo da janela onde seria o seu escritório e onde ele um dia disse que iria estar sentado a trabalhar e a olhar para o rio e a ver os barcos passar».

Pilar del Rio contou que as cinzas do escritor serão depositadas, no sábado, por debaixo de uma oliveira que foi entretanto transportada da Azinhaga do Ribatejo, onde Saramago nasceu, e que foi transplantada para o Campo das Cebolas, em Lisboa. As oliveiras da Azinhaga são várias vezes referidas no livro «As Pequenas Memórias».

«Ele não vai ver os barcos passar, mas nós, os seus leitores, vamos estar sentados num banco de pedra, da pedra do Memorial do Convento, e poderemos estar sentados e ver passar esses barcos que Saramago não pôde ver e refrescarmo-nos com a sombra da oliveira absolutamente maravilhosa trazida da Azinhaga. Foi trazida com muito respeito e com muita emoção, porque o presidente da Junta de Freguesia e um outro vizinho escolheram uma oliveira que, se calhar, era a que Saramago referia e contava nas Pequenas Memórias onde um dia viu um lagarto verde», referiu com emoção.

Pilar del Rio crê que, para a maior parte dos leitores de José Saramago, «ele continua a ser um escritor vivo» porque continuam a aparecer títulos. «A relação amorosa entre o autor e os leitores continua a produzir-se», constatou, ao mesmo tempo que anunciou alguns projectos da Fundação José Saramago para o curto e médio prazo. Um deles é a publicação em Portugal, em Outubro ou Novembro deste ano, de um romance de juventude de que Saramago falou muitas vezes, mas que nunca quis que fosse publicado: «Clarabóia».

Pilar justifica: «Saramago não quis vê-lo publicado em vida, mas disse que quando ele cá não estivesse...». E assim será.

In: tvi24


terça-feira, 19 de outubro de 2010

Saravá... Vinicius!...

Esta pretende ser uma pequena mas justíssima homenagem ao grande vulto da literatura e cultura brasileira que, se fosse vivo, completaria hoje 97 anos de idade.

Vinicius de Moraes, diplomata, jornalista, crítico de cinema e dramaturgo, o poetinha (como ficou conhecido), foi acima de tudo um grande poeta e compositor.

Nome incontornável da cultura e da música popular brasileira, Vinicius ficará para todo o sempre na nossa memória e nos nossos corações através da vastíssima obra que nos legou.

Melhor do que colocar aqui a sua biografia, será
recordá-lo através de alguns excertos da sua obra de escritor, poeta e compositor musical.

Soneto da Separação

De repente do riso fêz-se o pranto

silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fêz-se espuma
E das mãos espalmadas fêz-se o espanto.


De repente da calma fêz-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fêz-se o pressentimento
E do momento imóvel fêz-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fêz-se de triste o que se fêz amante
E de sozinho o que se fêz contente.

Fêz-se do amigo próximo o distante
Fêz-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Poética

Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia

E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.

Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo.
(Um templo sem Deus.)

Mas é grande e clara
Pertence ao seu tempo
.... Entrai, irmãos meus!


Procura-se um amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

A Rosa de Hiroshima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas

Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam

Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

Namorados do Mirante

Eles eram mais antigos que o silêncio
A perscrutar-se intimamente os sonhos
Tal como duas súbitas estátuas
Em que apenas o olhar restasse humano.

Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.

A Remontavam às origens — a realidade
Neles se fez, de substância, imagem.

Dela a face era fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido

Dele apenas restava o eterno grito
Da espécie — tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam

Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformadas na magma incandescente
Que milénios mais tarde explode em amor
E da matéria reproduz o tempo
Nas galáxias da vida no infinito.
Eles eram mais antigos que o silêncio...

Separação

Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é história do mundo. Ela o olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles.

Viu-a assim por um lapso, em sua beleza morena, real mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação.

Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de seccionar aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce.

Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias - um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas.

De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde...